Nomes dos quatro novos elementos: 113, 115, 117 e 118

No final de dezembro do ano passado, a IUPAC reconheceu oficialmente a descoberta dos elementos com números atômicos 113, 115, 117 e 118, de forma a completar o "último" período da tabela periódica. Após um período em que as equipes/colaborações responsáveis pelas descobertas puderam propor nomes para os novos elementos e sua consequente avaliação por parte da IUPAC, estes receberam enfim seus nomes e símbolos "quase" oficiais.

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A divisão de química inorgânica da IUPAC analisou as propostas de nomes e as recomendou para aceitação. Os nomes foram divulgados na última quarta-feira, 08 de junho e devem ser oficializados após uma revisão pública de 5 meses, ou seja, em 8 de novembro de 2016.

São eles:

  • Nihonium (Nh), para o elemento 113;
  • Moscovium (Mc), para o elemento 115;
  • Tennessine (Ts), para o elemento 117 e
  • Oganesson (Og), para o elemento 118.

As regras tradicionais à luz das quais as propostas foram revisadas, permitem que elementos sejam nomeados em homenagem a:

  1. um conceito ou personagem mitológico (incluindo objetos astronômicos),
  2. um mineral ou substância similar,
  3. um lugar ou região geográfica,
  4. uma propriedade do elemento ou
  5. um cientista.

Além disso, os nomes de todos os novos elementos em geral precisam ter terminações que mantenham consistência histórica. Isso significa que elementos dos grupos 1 a 16 recebem nomes terminados em "-ium" , elementos do grupo 17 nomes terminados em "-ine" e elementos do grupo 18, dos gases nobres, a terminação "-on" (em português, -ônio).

Os nomes dos novos elementos em inglês também devem permitir uma fácil tradução para outros idiomas. A tradução para o português ainda não é clara, mas seguindo as tendências, é provável que os nomes elementos se chamem Nihônio, Moscóvio, Tenesso e Oganessônio.

A origem dos nomes

Para o elemento com número atômico 113, os descobridores no RIKEN Nishina Center for Accelerator-Based Science (Japão) propuseram o nome nihonium e o símbolo Nh. Nihon é uma das duas formas de dizer "Japão" em japonês e significa literalmente "a terra do sol nascente". O nome foi proposto como uma conexão direta com o país da descoberta, sendo que o elemento 113 é o primeiro a ser descoberto num país asiático.

A proposta de nome para o elemento 115 é moscovium, com símbolo Mc, e para o elemento 117, tenessine, com símbolo Ts. Estes nomes seguem a tradição de homenagear um lugar ou região geográfica e foram prospostos em conjuntos pelos descobridores do  Joint Institute for Nuclear Research (Dubna, Rússia), do Oak Ridge National Laboratory (EUA), da Vanderbilt University (EUA) e do  Lawrence Livermore National Laboratory (EUA).

Moscovium é um reconhecimento à região de Moscou, à qual pertence a cidade de Dubna, onde está localizado o Joint Institute for Nuclear Research. Tennessine é um reconhecimento ao estado do Tennessee e à contribuição de instituições como o Oak Ridge National Laboratory, a Vanderbilt University e a University of Tennessee at Knoxville à pesquisa de elementos superpesados.

Para o elemento com número atômico 118, as equipes da colaboração entre o Joint Institute for Nuclear Research (Dubna, Rússia) e o Lawrence Livermore National Laboratory (EUA) propuseram o nome oganesson e o símbolo Og. Essa proposta é uma homenagem ao professor Yuri Oganessian (nascido em 1933), por suas contribuições pioneiras à pesquisa de elementos transactinídeos. Suas várias realizações incluem a descoberta dos elementos superpesados e avanços significativos no campo da física de núcleos superpesados, incluindo evidências experimentais para a existência da "ilha de estabilidade".


Após decorrido o prazo da revisão pública, as recomendações finais serão publicadas no periódico Pure and Applied Chemistry da IUPAC. Ainda segundo a IUPAC, laboratórios mundo a fora já estão trabalhando na descoberta de elementos pertencentes ao oitavo período da tabela periódica.

Fonte: IUPAC

Um método químico para armazenar energia solar

Cientistas do MIT desenvolvem material que pode armazenar energia solar durante o dia e libera-la na forma de calor à noite

O filme polimérico capaz de armazenar energia solar é composto de três camadas distintas (cada uma com cerca de 4 a 5 µm). Fonte: MIT News

O filme polimérico capaz de armazenar energia solar é composto de três camadas distintas (cada uma com cerca de 4 a 5 µm).

Apesar de o sol ser uma fonte virtualmente inesgotável de energia, ele está disponível apenas durante o dia - e com as condições climáticas adequadas. Um dos maiores problemas envolvendo o uso da energia solar está relacionado ao seu armazenamento. Usinas solares podem ajudar suprir a demanda por eletricidade durante o dia, mas a viabilidade de seu uso de forma contínua e confiável ainda depende do desenvolvimento de baterias e outros métodos de armazenamento de energia elétrica. Embora exista pesquisa nesta área, ainda não se pôde desenvolver uma tecnologia que permita a aplicação da energia solar em larga escala.

Entretanto, não é apenas na tentativa de conversão em eletricidade que a energia do sol pode ser usada. De fato, já existem outras aplicações voltadas ao aproveitamento do calor que vem de nossa estrela - haja vista "fogões solares"  e sistemas de aquecimento de água baseados em painéis solares. Mas como seria poder armazenar esse calor por algum período indeterminado de tempo e libera-lo apenas quando necessário? Inovações como roupas que permitem ajustar o nível de calor ou vidros automotivos capazes de liberar calor para derreter uma camada de neve podem se tornar possíveis com o desenvolvimento de um novo polímero aplicável sobre as mais diferentes superfícies - e assim abrir as portas para uma grande gama de aplicações.

A ideia da equipe formada pelo professor Jeffrey Grossman, o pós-doutorando David Zhitomirsky, e o graduando Eugene Cho não é armazenar o calor em si, mas reter sua energia na forma de molécula que podem apresentar duas conformações. Quando expostas ao sol elas adquirem determinada conformação mais energética e quando submetidas a algum estímulo químico ou físico específico, retornam à conformação inicial e liberam a diferença de energia na forma de calor.

Na plataforma utilizada pelos pesquisadores para testar a liberação de calor, um elemento aquecedor fornece energia suficiente para excitar os combustíveis solares. Uma câmera em infravermelho monitora a temperatura. O filme carregado (direita) libera o calor armazenado em suas moléculas, atingindo uma temperatura maior que o outro filme.

Na plataforma utilizada pelos pesquisadores para testar a liberação de calor, um elemento aquecedor fornece energia suficiente para excitar os combustíveis solares. Uma câmera em infravermelho monitora a temperatura. O filme carregado (direita) libera o calor armazenado em suas moléculas, atingindo uma temperatura maior que o outro filme.

Já havia pesquisas relacionadas a este tipo de material - os combustíveis termosolares (TSFs), mas sua aplicação era restrita a soluções líquidas e não apresentava perspectivas para o desenvolvimento de tecnologias em estado sólido. O objetivo da equipe é desenvolver filmes com essa propriedade que possam ser produzidos industrialmente de forma fácil e barata. Para isso os pesquisadores partiram da compostos azobenzênicos e modificaram sua estrutura para aumentar a densidade de energia capaz de ser armazenada, a sensibilidade a estímulos químicos e a possibilidade de serem produzidos na forma de filmes poliméricos uniformes. Um azobenzeno é composto de dois grupos fenil unidos por uma dupla ligação N=N.

Azobenzeno

Azobenzeno

A aplicação que mais gera interesse é a produção de para-brisas automotivos em que duas placas de vidro sejam separadas por uma camada de filme com esta propriedade. A montadora  alemã BMW já se mostrou interessada na tecnologia. O recurso seria especialmente interessante no caso de carros elétricos que gastam uma considerável quantidade de energia com o degelo de neve acumulada nos vidros.

 

Um processo de spin-coating permite a deposição do polímero a partir de uma solução. O filme também  pode ser carregado com luz ultravioleta. Esse método pode ser extendido para produzir filmes de espessura variável em um processo por camadas. A spin-coating process enables deposition of the solar thermal fuel polymer material from solution. The film can then be readily charged with ultraviolet light. This approach can be extended to a variable thickness in a layer-by-layer process.

Um processo de spin-coating permite a deposição do polímero a partir de uma solução. O filme também pode ser carregado com luz ultravioleta. Esse método pode ser extendido para produzir filmes de espessura variável em um processo por camadas.


 

Fonte: MIT News

Elementos 113, 115, 117 e 118 confirmados pela IUPAC

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De acordo com notícia publicada no site oficial da União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC), foram oficialmente reconhecidas as descobertas de quatro novos elementos, com números atômicos 113, 115, 117 e 118. Tal notícia não significa que estes elementos tenham sido descobertos simultaneamente agora. A existência destes elementos já havia sido prevista de antemão e no caso de elementos superpesados, a "descoberta" se resume a realizar experimentos em que se consiga produzi-los através da colisão entre outros núcleos e evidenciar sua existência por meio da análise dos produtos em que eles decaem, uma vez que estes são elementos extremamente instáveis com uma meia-vida muito pequena. Tais trabalhos já haviam sido realizados, mas os "candidatos" a elementos dependiam da aprovação por parte de um comitê conjunto da IUPAC e da IUPAP (União Internacional de Física Pura e Aplicada) para serem considerados oficialmente.

Os trabalhos que comprovam a existência dos novos elementos são frutos de duas colaborações:

  • o instituto RIKEN, no Japão, responsável pela descoberta do elemento 113;
  • a colaboração entre o Joint Institute for Nuclear Research, de Dubna, Rússia, o Lawrence Livermore National Laboratory e o Oak Ridge National Laboratory (EUA) responsáveis pela descoberta dos elementos 115, 117 e 118. Uma colaboração entre as duas primeiras instituições "descobriu" também os dois últimos elementos a entrarem para a tabela periódica, Fleróvio (114) e Livermório (116), oficializados pela IUPAC em 2011.

Com a oficialização da descoberta dos novos elementos, completa-se o sétimo período da tabela periódica. As equipes responsáveis têm o direito de propor nomes e símbolos para os elementos, que serão avaliados pela divisão de química inorgânica da IUPAC quanto a consistência, possibilidade de tradução para outros idiomas e prévia utilização histórica. Os elementos podem ser nomeados em homenagem a conceitos mitológicos, minerais, lugares ou países, suas propriedades ou cientistas.

"Como organização global que fornece conhecimento científico especializado e objetivo e desenvolve ferramentas essenciais para a aplicação e comunicação do conhecimento químico para o benefício da humanidade, a União Internacional de Química Pura e Aplicada está contente com a honra de fazer este anúncio pertinente aos elementos 113, 115, 117 e 118 e com o completar-se do sétimo período da tabela periódica", comentou o presidente da IUPAC, Dr. Mark. C. Cesa. "estamos empolgados em relação a estes novos elementos e agradecemos aos cientistas dedicados que os descobriram por seu trabalho árduo, bem como aos membros do comitê conjunto da IUPAC/IUPAC por completarem esta tarefa essencial e de importância crítica."


FonteDiscovery and Assignment of Elements with Atomic Numbers 113, 115, 117 and 118, IUPAC

Um retrato de Niels Bohr

No dia 7 de Outubro de 1885 nascia Niels Bohr, o grande físico dinamarquês reconhecido como um dos precursores da mecânica quântica, que prestou grande colaboração ao estudo da estrutura atômica. O trabalho de Bohr e seu modelo atômico são amplamente conhecidos. Nesta data, 130 anos após seu nascimento, pretendemos apresentar um retrato mais pessoal e pitoresco da pessoa que foi Niels Bohr. O seguinte texto é um relato em primeira pessoa do físico russo-americano George Gamow sobre sua experiência e memórias pessoais em relação a Bohr, extraído do seu livro Thirty Years That Shook Physics: The Story of Quantum Theory. Trata-se de um bom exemplo da personalidade descontraída e brincalhona de alguém que, por seus feitos científicos, de ser tido como austero pela maioria dos estudantes de hoje.


Niels Bohr e sua esposa, foto de George Gamow.

Niels Bohr e sua esposa, foto de George Gamow.

A personalidade de Niels Bohr e o prazer da vida e do trabalho em seu instituto ainda estão presentes em meio a minhas memórias dos anos entre 1928 e sua morte, e espero que uma ou duas anedotas pessoais deem ao leitor uma impressão desse homem tão notável.

Após passar nos abrangentes exames da Universidade de Leningrado na primavera de 1928, consegui uma permissão do governo soviético para passar dois meses em um curso de verão da Universidade de Göttingen. Naquela época a ideia de ciências "proletária" e "capitalista", que supostamente deveriam ser hostis uma à outra, ainda não havia se desenvolvido na Rússia soviética e o problema de ir para o exterior se resumia ao problema de ter permissão para trocar uma quantia de rublos russos por uma quantia equivalente de reichsmark alemães. Apresentando recomendações de vários professores da Universidade, consegui uma modesta quantia de dinheiro alemão e embarquei em um navio em Leningrado rumo a terras alemãs. Chegando a Göttingen, aluguei um típico quarto de estudante e me pus a trabalhar.

Isis foi apenas dois anos após a descoberta da mecânica ondulatória e todos estavam ocupados em estender a teoria original de Bohr da estrutura atômica e molecular para o novo e mais avançado campo da mecânica ondulatória. Mas eu não gosto, e nunca gostei, de trabalhar em campos "apinhados", então decidi tentar fazer algo quanto à estrutura do núcleo atômico. Naquela época o núcleo estava sendo estudado experimentalmente, mas ninguém havia proposto uma teoria de sua estrutura e propriedades. Durante estes dois meses em Göttingen, encontrei uma mina de ouro e consegui explicar, com base na mecânica ondulatória, o decaimento espontâneo de núcleos radioativos, bem como a desintegração nuclear causada pelo bombardeamento com partículas externas. Como descobri depois, um trabalho bem similar foi realizado simultaneamente pelo físico britânico R. W. Guney, em colaboração com o americano E. U. Condon; na verdade nossos artigos foram apresentados para publicação quase no mesmo dia.

Ao final do curso de verão meu dinheiro estava acabando e eu tinha que voltar para casa. Mas no caminho de volta, resolvi passar por Copenhagen para conhecer o professor N. Bohr, cujo trabalho eu tanto admirava. Em Copenhagen encontrei o quarto mais barato em um hotel pequeno e modesto, então fui ao instituto de Bohr ver sua secretária, Frøken (Srta.) Schultz, para tratar de marcar um horário. (Quando visitei Copenhagen vários anos depois, cerca de um anos da morte de Bohr, ela ainda era sua secretária). "O professor", disse ela, "pode vê-lo esta tarde." Quando entrei em seu escritório, encontrei um homem de meia idade amigável e sorridente, que me perguntou quais eram meus interesses na física e em que estava trabalhando no momento. Então contei a ele sobre o trabalho que havia feito em Göttingen a respeito das transformações nucleares, cujo manuscrito havia sido enviado mas ainda não publicado. Bohr ouviu com atenção e falou "Muito interessante, de fato muito, muito interessante. Por quanto tempo você vai ficar aqui?" Expliquei que eu só tinha dinheiro para mais um dia. "Mas você poderia ficar por um ano", perguntou Bohr, "se eu lhe arrumasse uma bolsa Carlsberg1 da nossa Academia de Ciências?" Retomei o ar e consegui balbuciar "Ah sim, poderia!" Então as coisas andaram rapidamente. Frøken Schultz me arranjou um bom quarto em uma pensão administrada pela Frøken Have, a apenas algumas quadras do Instituto, que posteriormente tornou-se uma "base" para muitos jovens físicos que vinham trabalhar com Bohr. O trabalho no Instituto era muito fácil e simples: qualquer podia fazer o que quisesse, vir trabalhar e voltar para casa quando desejasse. Outro jovem bolsista que estava hospedado na pensão de Frøken Have era Max Delbrück2, da Alemanha. Ambos gostávamos de dormir até tarde de manhã e Frøken Have desenvolveu um método especial para nos fazer levantar. Ela vinha ao meu quarto e dizia "Dr. Gamow, é melhor você levantar. O Dr. Delbrück já tomou seu café da manhã e saiu para o trabalho!" Então ela aplicava o mesmo tratamento ao ainda sonolento Delbrück: "Dr. Delbrück, é melhor você levantar. O Dr. Gamow já tomou seu café da manhã e saiu para o trabalho!" Então eu e Max nos esbarrávamos no corredor. Mas ainda assim, todos faziam progresso no trabalho, especialmente à noite, que é o período mais inspirador para físicos teóricos. Esse trabalho noturno na biblioteca do Instituto era frequentemente interrompido por Bohr, que dizia estar muito cansado e que gostaria de ir ao cinema. Os únicos filmes dos quais ele gostava eram os westerns (estilo Hollywood) e ele sempre precisava de alguns alunos para lhe explicar as tramas complicadas envolvendo índios amigáveis e hostis, vaqueiros corajosos e foras da lei, xerifes, garçonetes, mineradores e outros personagens do velho oeste. Mas sua mente teórica se mostrava mesmo nessas expedições ao cinema. Ele desenvolveu uma teoria sobre por que, apesar de o vilão sempre sacar a arma antes, o herói sempre é mais rápido e consegue mata-lo. Essa teoria de Bohr era baseada na psicologia. Já que o herói nunca atira primeiro, o vilão tem que decidir quando sacar a arma, o que impede sua ação. O herói, pelo contrário, age de acordo com reflexo condicional e pega sua arma imediatamente quando vê a mão do vilão se mover. Nós discordamos dessa teoria e no dia seguinte fui a uma loja de brinquedo e comprei duas armas em coldres ao estilo do velho oeste. Brincamos com Bohr, ele no papel de herói, e ele "matou" todos os seus alunos.

Outra consideração sobre Bohr, inspirada por filmes do velho oeste, diz respeito à sua teoria de probabilidade. "Posso acreditar", dizia ele, "que uma garota sozinha ande por uma trilha estreita nas montanhas rochosas e que ela possa tropeçar e, caindo pelo precipício, consiga se agarrar a um pequeno toco de pinheiro na beira e assim salvar-se da morte inevitável. Também posso imaginar que no mesmo momento, um belo vaqueiro esteja viajando pela mesma trilha e, percebendo o acidente, amarre seu laço à sela do cavalo e desça ao precipício para salvar a garota. Mas me parece extremamente improvável que ao mesmo tempo um cinegrafista esteja presente para gravar este evento empolgante em filme!"

Na sua juventude Niels Bohr fora um atleta e tanto e, no futebol (jogado no velho mundo com uma bola esférica chutada com os pés) só perdia para seu irmão, o conhecido matemático Harald Bohr, que era o goleiro campeão do time de Copenhagen.

Quando passei as férias de natal de 1930 com Bohr (na época com 45 anos), juntamo-nos a um grupo de cientistas noruegueses (Rosseland, Solberg, e o "velho" Bjerknes) para esquiar no norte da Noruega, além do círculo polar, Bohr se saiu melhor que todos nós.

Uma história que sempre gosto de contar ou escrever sobre Bohr é a da noite em Copenhagen em que Bohr, Fru (a Sra.) Bohr, Casimir (outro bolsista no Instituto) e eu retornávamos de um jantar de despedida oferecido por Oskar Klein por ocasião da sua promoção a professor universitário na Suécia, seu país de origem. Naquela hora tardia as ruas da cidade estavam vazias (o que não se pode dizer das ruas de Copenhagen hoje). No caminho para casa passamos pelo prédio de um banco com paredes compostas por grandes blocos de cimento. No canto do prédio as fendas entre os blocos eram fundas o suficiente para os pés de um bom alpinista. Casimir, um alpinista experiente, subiu quase até o terceiro andar. Quando Cas desceu, Bohr, inexperiente como era, tentou alcançar o mesmo feito. Quando ele estava precariamente pendurado no segundo andar e eu, Fru Bohr e Casimir assistíamos ansiosamente ao seu progresso, dois policiais de Copenhagen se aproximaram com as mãos prontas para sacar suas armas.  Então um deles olhou para cima e falou para o outro "Ah, é só o professor Bohr!" e eles simplesmente foram embora para procurar outros ladrões de banco mais perigosos.


  1. A cervejaria dinamarquesa Carlsberg era a principal financiadora da Real Academia Dinamarquesa de Ciências. O fundador da cervejaria deixou em testamento que os lucros deveriam ser usados para financiar a pesquisa científica. A sua mansão, na propriedade da cervejaria, deveria ser a residência do mais famoso cientista dinamarquês. Bohr e sua família moraram no local.
  2. Delbrück ganhou o prêmio Nobel de fisiologia em 1969 por seus trabalhos com biofísica relacionados à estrutura genética e ao mecanismo de replicação de vírus.

Fonte do texto e leitura recomendada:

GAMOW, George. Thirty Years that Shook Physics: The Story of Quantum Theory

Tio Tungstênio

Se houve um livro que teve papel decisivo no desenvolvimento das minhas "aspirações" por química, certamente foi "Tio Tungstênio", do Oliver Sacks. Ao relembrar episódios da  infância que despertaram sua paixão paixão pela ciência, Sacks reconta capítulos da história da química e ciências correlatas, com um estilo tão apaixonante quanto sua própria relação com os assuntos sobre os quais discorre.

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Minha edição do "Tio Tungstênio", Vintage Books, 2011.

Sacks é um aclamado neurologista e escritor, que teve o privilégio de crescer em um ambiente familiar "científico". Seus pais eram médicos: a mãe, cirurgiã, apresentou o menino à dissecação de cadáveres em uma idade precoce. Dois de seus tios maternos eram cientistas, de forma que o convívio com a família despertou bem cedo a admiração e a curiosidade científica do pequeno Oliver.

Tio Abbe era físico; é a ele que o menino recorre após ler sobre Faraday e descobrir o princípio de indução por detrás dos dínamos de sua bicicleta. O tio físico explica a um jovem fascinado pelas "linhas de força" de Faraday os desdobramentos mais recentes da teoria eletromagnética: a unificação de eletricidade e magnetismo por Maxwell, a descoberta das ondas de rádio por Hertz e uma nova interpretação para a natureza da luz, mostrando como  toda a teoria pode ser resumida em quatro equações impressas em um de seus livros. Abbe Landau compartilhou da empolgação com a transmissão dos primeiros sinais de rádio através do Canal da Mancha, ainda na sua juventude, e chegou a desenvolver um cristal melhor que o mineral galena, usado na recepção de sinais AM, no que foram os primeiros aparelhos de rádio.

Contudo, o membro da família que mais cativava Oliver era tio Dave, o "Tio Tungstênio", personagem que dá título ao seu livro de memórias. Dave Landau não era bem um químico; antes um empreendedor: dono de uma fábrica de lâmpadas de tungstênio, mas conhecedor e apaixonado pela ciência por detrás do seu negócio. Fascinado por metais, em especial o tungstênio do qual fazia lâmpadas, tinha laboratórios de química instalados em suas fábricas para além das suas necessidades comerciais; tio Dave gostava de fazer experimentos por diversão. Sacks reconta como, em meio às visitas ao Geological Museum, começa também a admirar os diferentes minerais e elementos químicos, começando sua própria coleção. Após um ocaso de sua relação com a ciência - um episódio durante a segunda guerra mundial em que seus pais optaram por transferi-lo para um internato rígido e entediante, mas a salvo do Blitz - Oliver retoma sua aventura científica com entusiasmo redobrado, adquirindo equipamentos, reagentes e montando seu próprio laboratório químico em casa.

Dentre os episódios da história da ciência narrados por Sacks em meio a suas memórias, há um que recebe, de certa forma, maior atenção, talvez pelo fascínio que nele suscitava: a história da radioatividade, em especial, a do casal Curie. O autor abre um capítulo sobre o rádio, contando:

"A biografia de Marie Curie escrita por sua filha, Eve Curie - livro que minha mãe me deu quando  eu tinha dez anos -, foi a primeira biografia de cientista que li, e me impressionou profundamente. Não era uma descrição árida das realizações de toda uma vida, mas um texto rico em imagens evocativas, pungentes - Marie Curie mergulhando as mãos em sacos de resíduos de uraninita, ainda misturados a agulhas de pinheiro da mina de Joachimsthal, inalando vapores ácidos em meio a grandes cubas e cadinhos fumegantes, mexendo-os com uma haste de ferro quase da sua altura, transformando as imensas massas alcatroadas em recipientes altos de soluções incolores, cada vez mais radioativas, e constantemente as concentrando, por sua vez, em seu galpão varrido por correntes de ar, onde a poeira e a  areia não paravam de penetrar nas soluções e anular o trabalho interminável."

Em 1998, ao fazer uma palestra na ocasião do centenário da descoberta do polônio e do rádio, Sacks contou que Madame Curie, livro que lera aos dez anos, era sua biografia favorita. Percebeu  um sorriso estampado na face de uma senhora idosa presente na plateia... ao final da palestra ela veio falar com ele: tratava-se de ninguém menos que Eve Curie! A escritora e filha de Marie, na época com 94 anos, autografou o livro de Sacks, 55 anos depois dele tê-lo ganhado.


Li "Tio Tungstênio" quando estava no segundo ano do ensino médio; naquele tempo, com meu crescente interesse por química, foi uma leitura fascinante e inspiradora. A edição que tenho, em inglês, publicada pela Vintage Books, tem uma capa com design particularmente interessante. Faz parte de uma coleção dos livros do autor (os outros são sobre neurologia), cujas capas se completam em um mosaico bem criativo:

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O Aspirações Químicas está sorteando um exemplar do livro, em edição da Companhia de Bolso, através da página no Facebook. Viste-nos por lá para uma chance de concorrer! Basta clicar na imagem abaixo e seguir as instruções. O  sorteio será realizado no dia 22 de agosto de 2015.

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Para saber mais sobre Oliver Sacks e seus outros livros, incluindo sua recém-lançada autobiografia, visite seu site: http://www.oliversacks.com/